Archive for Setembro 9th, 2007
o cinema nacional e meu novo objeto de desejo.
A revista Bravo desse mês traz como matéria principal o filme Cidade dos Homens e disserta sobre como seu precursor, Cidade de Deus, mudou o cinema brasileiro. Bom, eu ainda não vi Cidade dos Homens. Nem quando era uma série. Mas eu me lembro bem do impacto que Cidade de Deus teve sobre mim. Me lembro bem de ter visto o filme, sozinha, numa das salas [vazias] do Teresina Shopping. Me lembro bem do desespero de não ter com quem comentar aquele absurdo, aquela feladaputice, no momento em que ela acontecia, diante dos meus olhos. Voltando pra casa ainda senti ânsias lembrando de certas cenas. Me lembro bem das cores, da edição rápida, do roteiro “nervoso”, e de toda a comoção que foi um tempo depois, em torno do filme. Me lembro da entrevista de Katia Lund, co-diretora do projeto, nas páginas vermelhas da TPM. E não é preciso dizer que houve sim coisas muito boas antes disso, já que obviamente não há como se esquecer de Central do Brasil, pra citar apenas o top dos tops. Mas também me parece desnecessário dizer que não há como negar, clichês à parte, que Cidade de Deus foi sim um marco no cinema nacional.

Quando eu era criança falar em cinema nacional era falar em putaria. Nenhum adulto conhecido comentava sobre como Deus e o Diabo na Terra do Sol ou Terra em Transe eram importantes, ou achava que Pixote seria um clássico, ou dava a menor importância pro Beijo da Mulher Aranha; e tirando os filmes dos Trapalhões e da Xuxa [com exeção de Amor Estranho Amor, naturalmente] éramos todas proibidas de ver as películas nacionais exibidas pela Bandeirantes, num dia da semana que eu não me lembro qual, depois da dez.

Mais um pouco e em 1990 as coisas pioraram; o fim da Embrafilme foi o começo de um período nebuloso para o cinema brasileiro, que só deu os primeiros passos de volta à luz em 1995, com uma lei de incentivo cultural criada pelo Ministério da Cultura. São dessa época filmes como Carlota Joaquina, A Ostra e o Vento, Guerra de Canudos e, os meus preferidos de então, O Que É Isso Companheiro e Terra Estrangeira. Em 1999 veio Central do Brasil e uma indicação ao Oscar, que revitalizou o cinema nacional. Cidade de Deus, de 2002, foi o grande sucesso dessa fase, chamada de “a retomada”.

Na minha opinião, embora eu concorde com Ana Bean em alguns pontos no que diz respeito aos roteiros, o cinema nacional tem ido muito bem ultimamente. Não vi os comentados Não Por Acaso e O Cheiro Do Ralo [juro, não vi O Cheiro do Ralo], mas vou estender o meu “ultimamente” e dizer pela milésima vez que Lavoura Arcaica é uma das maiores feladaputices nacionais que eu já vi na vida. Além disso, dos nacionais que vi mais recentemente, O Céu de Suely também fez meu coração bater mais forte, com o seu realismo; Houve Uma Vez Dois Verões é melhor do que muita comédia romântica adolescente americana por aí; Cão Sem Dono é o meu segundo nacional preferido ever, além de ter uma das músicas mais bonitas do ano na trilha [meus agradecimentos especiais à própria Fernanda Fez, que me enviou o arquivo em mp3, acabando com a minha busca desesperada] e O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias é tão bonito visualmente, tão tocante, tão difícil, tão triste e me fez sofrer tanto e tanto de saudade que eu acho que dispensa maiores comentários.

Mas essa conversa toda é, enfim, um pretexto pra eu expressar o meu mais profundo interesse pelo novo filme de Leandra Leal, Nome Próprio, dirigido por Murilo Salles [o mesmo de Como Nascem os Anjos] e baseado em livro de Clarah Averbuck. O filme ainda não tem trailer, mas tem um blog e o lançamento está marcado pro dia 21 de Setembro, na abertura da Premiére Brasil do Festival de Cinema do Rio. Tão aguardado quanto Cão Sem Dono. Esperando gostar tanto quanto.
