azar o seu, querida.*

[por uma vida menos ordinária]

Archive for Julho 17th, 2007

the book is on the table.

com 5 comentários

De um modo geral eu não gosto de meme’s. Não consigo não pensar naquelas correntes empata-espaço que antigamente lotavam caixas de email pelo mundo, e que agora aparecem de forma singela vez por outra nos nossos orkuts [ui!], cada vez que alguém me indica para responder um dito. Normalmente eu fujo de meme’s. Aliás eu sempre fujo de meme’s quando eles não são indicados pelo meu já conhecido amigo, blogueiro e futuro sócio num empreendimento ainda secreto, Ian Marquinhos José Enloucrescendo Câmara.

Sabe como é, o Ian gosta de meme’s.

Não obstante, ontem eu recebi do moço que escreve o Fina Ironia, o Gustavo, uma indicação pra participar de um meme sobre livros e, surpresa!, resolvi participar. Acontece que eu adoro livros. Lê-los e tê-los. Comecei cedo e, tendo sido muitíssimo bem incentivada na infância, acabei tomando gosto pela coisa. Além disso o dito meme pretende passar adiante o hábito da leitura e eu adoro essas campanhas subversivas do tipo “desligue a TV e vá ler um livro”, “desligue a TV e vá levar o cachorro pra passear [mas não esqueça o saquinho pra recolher o cocô!], “desligue a TV e vá lavar a louça que está na pia há 4 dias”, “desligue a TV e vá trepar”, etc, etc, etc.

Sem contar que desta vez quem vai indicar o Ian pra responder sou eu. Rá!

A idéia é listar 5 obras literárias queridas e passar a responsabilidade pra frente. De antemão passo a bola aos companheiros Ian Black, André Gonçalves, Aline Neves, Luciana Dantas e Mirela.

Mas antes de postar a lista propriamente dita, acho pertinente dizer que não se trata do meu top 5 livros preferidos [embora os dois primeiros sejam de fato os meus livros preferidos na ordem em que se apresentam] mas, antes, de livros que eu considero importantes, livros que eu indicaria [e indico] à conhecidos e desconhecidos, na esperança que instiguem, inspirem, impulsionem de alguma forma e façam pensar, assim como me instigaram, inspiraram, impulsionaram e fizeram pensar. Sem mais delongas, eis a lista minha gente:

1. Cem anos de solidão: Gabriel Garcia Marquez

“Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Ursula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse.”

2. Ensaio sobre a cegueira: José Saramago

“Mandou parar o táxi um quarteirão antes, misturou-se com as pessoas que seguiam na mesma direcção, como que deixando-se levar por eles, anónima e sem nenhuma culpa notória. Entrou no hotel com ar natural, atravessou o vestíbulo para o bar. Chegara adiantada alguns minutos, portanto devia esperar, a hora do encontro havia sido combinada com precisão. Pediu um refresco, que tomou sossegadamente, sem pôr os olhos em ninguém, não queria ser confundida com uma caçadora de homens vulgar. Um pouco mais tarde, como uma turista que sobe ao quarto a descansar depois de ter passado a tarde nos museus, dirigiu-se ao ascensor. A virtude, quem o ignorará ainda, sempre encontra escolhos no duríssimo caminho da perfeição, mas o pecado e o vício são tão favorecidos da fortuna que foi ela chegar e abrirem-se-lhe as portas do elevador. Saíram dois hóspedes, um casal idoso, ela passou para dentro, premiu o botão do terceiro andar, trezentos e doze era o número que a esperava, é aqui, bateu discretamente à porta, dez minutos depois estava nua, aos quinze gemia, aos dezoito sussurrava palavras de amor que já não tinha necessidade de fingir, aos vinte começava a perder a cabeça, aos vinte e um sentiu que o corpo se lhe despedaçava de prazer, aos vinte e dois gritou. Agora, agora, e quando recuperou a consciência disse, exausta e feliz, Ainda vejo tudo branco.”

3. Grande Sertão Veredas: Guimarães Rosa

“O senhor…Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.”

4. 1984: George Orwell

“…..em todo o mundo , centenas ou milhares de milhões de pessoas exatamente assim , ignorantes da existência dos outros , separadas por muralhas de ódios e mentiras , e no entanto quase exatamente iguais – gente que nunca aprendera a pensar mas guardava no coração , no ventre e nos músculos a força que um dia revolucionaria o mundo. Se esperança havia , estava nos proles! “

5. Tudo se Ilumina: Jonathan Safran Foer

“A vida de Brod era uma lenta percepção de que o mundo não era pra ela, e de que – fosse por que razão fosse – ela jamais seria feliz e sincera ao mesmo tempo. Ela sentia-se transbordar, sempre produzindo e guardando mais amor dentro de si. Mas não havia libertação. Mesa, bibelô de marfim em forma de elefante, arco-íris, cebola, penteado, molusco, Shabbos, violência, cutícula, melodrama, vala, mel, paninho ornamental… Nada daquilo a comovia. Ela abordava o mundo com sinceridade, buscando algo merecedor do enorme amor que sabia ter dentro de si, mas para cada coisa teria de dizer, Eu não te amo. Mourão de certa cor de casca de árvore: eu não te amo. Poema longo demais: eu não te amo. Nada dava a sensação de ser mais do que na realidade era. Tudo era apenas coisa, completamente atolada na sua coisice.”

Escrito por juliana

Julho 17, 2007 em 9:37 pm