aos paulicéios na desvairada.
No dia 1 de Abril entrou em vigor pra valer em São Paulo a Lei Cidade Limpa. A dita lei, que encrenca com a publicidade externa e pretende normatizar outdoors, frontlights, placas, painéis toldos e tudo o mais, adequando-os ao decreto com o objetivo de acabar com a poluição visual da cidade, já vem dando o que falar desde setembro do ano passado, quando foi aprovada. Mas a coisa começou a ficar quente mesmo no começo deste ano, quando ficou claro que a lei era mesmo séria [quem não entrar na linha, e for pego, paga no mínimo R$ 10 mil de multa]. Mesmo quem não mora em São Paulo, deve se lembrar por exemplo do episódio em que o prefeito Gilberto Kassab xingou de vagabundo o manifestante, e dono de uma pequena empresa que produz faixas e cartazes, Kaiser Paiva Celestino da Silva, que se colocou contra a lei e questinou a quantidade de empregos nos quais ela daria fim, num encontro com o prefeito em um posto de saúde, no começo de fevereiro.
Como arquiteta e urbanista devo confessar que não tenho ainda uma opinião formada sobre o assunto. Apesar de, particularmente e de certa forma, “gostar” da poluição visual que caracteriza as grandes cidades de um modo geral, entendo que em algumas áreas da cidade a situação é de fato caótica; mas há ainda a questão da idéia, apesar de boa e pertinente, não estar sendo usada como melhor poderia ser, a questão dos empregos de pessoas como Kaiser, a questão da coisa toda “não ser bem assim” e tantas outras questões a serem levadas em consideração e pensadas, que eu ainda não me atrevo a dizer simplesmente se sou contra, ou a favor.
Mas esse texto não é sobre isso.
Acontece que com todo esse furdunço tenho visto por aí em muitos blogs textos e comentários sobre o assunto. E é claro que meu amigo querido e blogueiro, Ian Marquinhos José Enloucrescendo Câmara, não poderia ficar de fora. Mas o que me chamou a atenção no texto de Ian foi a parte que diz que ele, nascido e criado na paulicéia, jamais tinha ido de fato ao MASP ou ao Mercado Municipal. E sei que ele não é a exceção; isso foi uma das coisas que mais me chamou a atenção à medida que fui conhecendo e observando os paulistanos, o fato da maioria dessas pessoas, nascidas e criadas aqui, não conhecerem muito bem a sua cidade, pelos mais variados motivos.
A verdade é que, até ganhar a minha viagem de presente de formatura da minha fada-madrinha-de-cabelos-vermelhos-e-nome-de-estrela-mais-brilhante, São Paulo nunca foi o lugar pra onde eu queria ir. Pelo contrário. Me lembro de conversas acaloradas com meus amigos queridos de infância, então moradores e apaixonados pela cidade, quando palavras como cinza, feia e louca saiam da minha boca em referência à cidade. Mas mesmo nessa época o MASP era uma paixão e a Av. Paulista uma curiosidade, pra falar apenas de dois lugares chave por aqui.
Não tenho nenhum pudor em dizer que mordi a língua bonito: todo mundo sabe o quanto eu sou apaixonada por São Paulo hoje. E eu acredito que, além do fato de eu ser desde sempre uma apaixonada por cidades, contribuiu muito pra eu ter caído de amores pela paulicéia o fato de que assim que cheguei sai, ou fui levada, pra conhecer tudo aquilo de que tanto falavam e que tanto me causava curiosidade. E isso não inclui apenas a Paulista, a avenida mais importante do país e que foi o meu primeiro passeio de turista; o MASP [sim, eu chorei], o Mercado Municipal ou o Ibirapuera, mas também a periferia da cidade [que mexeu comigo de uma forma que só quem tenta entender o urbanismo como eu entenderia], a noite na Augusta, a Catedral da Sé [sim, eu chorei de novo] e toda a loucura que há em volta dela e em todo o centro da cidade, a Estação da Luz com os seu tipos de todos os cantos, a Pinacoteca e o meu dejavú, o Minhocão, os botecos, a riqueza da Oscar Freire, os casarões dos Jardins e do Morumbi, e, especialmente e principalmente, as pessoas. De vários lugares do mundo, de todos os lugares do país, inclusive de São Paulo; zona norte, zona leste, zona oeste, zona sul. Quantas e quantas vezes o passeio era só pra observar as pessoas; no vão do MASP, na USP, no centro. Não seria, afinal, um dos melhores jeitos de se entender um lugar?
É óbvio que mesmo tendo andado bastante nesses quase três anos eu não conheço tudo. Não é à toa que chamam isso aqui de Grande São Paulo. Mas eu continuo passeando por aí. De olhos, ouvidos e sentidos bem abertos pra descobrir novas coisas e lugares. E é claro que não fico sabendo das coisas do nada, mas quem procura acha, e, entre outras coisas, eu achei [não tão recentemente, é verdade, mas agora tenho a oportunidade de contar] dois sites que podem ajudar muito a quem se interessa em saber o que é que São Paulo tem. Um deles, o SimplesCidade conta com a colaboração da querida Gabi, e traz um monte de boas dicas, não só de pontos turísticos pra se visitar mas também de como/onde resolver/encontrar coisas do dia a dia na metrópole. Já no Sampaist, que conta com a colaboração da Ana “Bean Jean” [que apesar de só ter visto uma vez e de conhecer pouco eu também considero uma querida], além de dicas e noticias, você também lê sobre festas, novos bares e restaurantes legais, shows e bandas da cidade, todo tipo de acontecimento e opiniões. Além disso, eu também vou me atrever a dar dicas; cinco lugares da paulicéia que eu gosto, considero interessantes e acho que valem a pena ser conhecidos, dois pontos turísticos indispensáveis e três bons achados. Aproveitem. Paulistanos ou não.
1. catedral da sé.
Não interessa qual é a sua religião. A Catedral da Sé, ou Catedral Metropolitana de São Paulo, é um dos cinco maiores templos góticos do mundo, e só por isso já vale ser visitada. Se isso não bastasse, a catedral é linda, linda, e nem mesmo quem jamais se interessou por arquitetura na vida vai ficar indiferente àqueles arcos, vitrais e colunas. Os mais curiosos podem ainda visitar a cripta que fica embaixo do altar principal; lá estão os restos mortais de vários bispos de São Paulo e a visita é feita com um guia que te conta a história da catedral [e sua importância na história da cidade] e dos tais bispos.
Serviço: Catedral Metropolitana da Sé
Praça da Sé, Centro , tel. 3107-6832
Missas: Segunda à Sábado: 8h30 e 12h; Domingo: 9h , 11h e 17h
2. mosteiro de são bento.
Não minha gente, eu não virei uma carola nem nada do tipo. Mas já que você vai na Sé, não custa nada descer uns quarteirões até o largo do São Bento e ouvir o Coral da Ordem de São Bento que é, com o perdão do trocadilho, divino. Além disso o mosteiro também tem uma ótima fama gastronômica e dá pra comprar bolos, mel e geléias, feitos pelos próprios monges [a partir de receitas seculares e secretas], que vão te levar aos céus [tá bom, tá bom, já parei, já parei].
Serviço: Mosteiro de São Bento
Largo São Bento, s/nº, Centro, tel. 228-3633
Missas: segundas a sextas, às 7h; sábados, às 6h; domingos, às 10h
3. cinemateca brasileira.
Você achava que só n’Os Sonhadores tinha cinemateca? Enganado. A Cinemateca Brasileira surgiu com a criação do Clube do Cinema de São Paulo, em 1940 por estudantes de filosofia da USP, foi fechada pela polícia na época do Estado Novo, foi incorporada ao governo federal em 1984 e hoje está ligada à secretaria do Audivisual, contando com um acervo de 200 mil rolos de filmes [longas, curtas e documentários] e outro de documentos [livros, revistas, roteiros, fotos e cartazes] relacionados ao cinema nacional. A instituição é responsável também pela restauração e preservação da produção audiovisual brasileira. E daí? – você me pergunta. E daí que a Cinemateca tem uma boa programação de exibição de filmes, quase sempre montadas por temas e que não se prende apenas à cinema nacional, com bons preços, além de cursos, palestras e uma ótima biblioteca pra quem se interessa pelo assunto. E sim, o prédio [um conjunto de edifícios históricos inaugurados no século 19, que já serviram de Matadouro Municipal e foram tombados e restaurados pelo Condephaat no início da década de 90] é uma graça.
Serviço: Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino
4. galeria vermelho.
Tá lá no site da Castwork: “Galeria Vermelho é um espaço dedicado à produção de arte contemporânea com ênfase em novos meios. A galeria mantém um caráter experimental que valoriza o processo da criação artística que vai além de representar mais de 30 artistas comercialmente. Através de exposições, palestras, uma biblioteca especializada em títulos sobre arte, cursos dirigidos à pesquisa artística e teórica, apresentações de dança, design gráfico, moda, música, lançamentos de livros”. Além disso, pra não dizer que eu só gosto dos lugares cujos prédios acho bonitos, vou me limitar desta vez, a dizer que o projeto do prédio [resultado da reforma de 3 sobrados geminados] é de Paulo Mendes da Rocha.
Serviço: Galeria Vermelho
Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis
5. praça do pôr-do-sol.
E pra homenagear o meu amigo Ian, que foi quem me apresentou o lugar e começou com essa conversa toda, e acabar com o post e com uma outra conversa que rola por aí que em São Paulo não tem pôr-do-sol bonito, eu não só digo que tem como completo que, como na maioria das cidades, basta escolher o lugar certo. Eu sugiro a praça do pôr-do-sol [que deve ter um nome convencional, mas que eu não sei qual é] e boa[s] companhia [s]. O lugar é o que muitos chamam por aí de mirante, numa ruazinha tranqüila de Pinheiros, está cercado por casas legais e vale todo o trabalho que dá [pelo menos pra quem faz o caminho que eu faço] pra chegar. Não tenho o endereço, mas me mandem um email que eu ensino como chega. Quem sabe até não vou junto. Sabe como é, tenho um fraco por pôr-do-sol.
[ps.: eu não vou pedir pros meus amigos blogueiros fazerem as suas listas também, mas pra quem se interessar, sim, podem chamar de meme, viu Ianzinho?]
to querendo ir praí. aaaaaaa….quero conhecer tudo.
beijo!
mônica
Abril 15, 2007 em 9:20 pm
são paulo sempre leva as pessoas que eu gosto…
=/
talvez um dia me leve também.
mas… mudando de assunto…
como estudante de publicidade, me preocupo bastante com essa lei…
clarinha
Abril 15, 2007 em 11:46 pm
Já que tocou no assunto, vou tentar me explicar. Eu sei que SP tem inúmeras facilidades (também por isso estou aqui), mas como boa carioca da gema, não consigo ver beleza neste lugar. E as pessoas daqui, grosso modo, também me aborrecem; não têm o calor no trato que o carioca ainda tem.
Talvez pense assim por morar na zona leste, longe de tudo, e de tudo o que eu gosto. Quem sabe as coisas mudem agora que vou me mudar pro caos da Augusta… ;o)
*
Cada vez que eu venho aqui, gosto mais do seu blog.
resposta:
Então se mude pro caos da Augusta [eu adoro a Augusta], vamos marcar uns dois, tres ou quatro programas, e aí a gente conversa de novo sobre o assunto, combinando?
Sâmia
Abril 16, 2007 em 8:53 am
Boa idéia a sua. Esta cidade, pra mim, é linda. Não troco por nada.
Meu próximo post será uma lista dessas.
Beijão!
Nanci
Abril 16, 2007 em 9:34 am
Não sou arquiteto mas me apaixonei por arquitetura uma épica hiperfuncionalista da minha vida. Entendo que a discussão do que fazer com o espaço físico tem tudo a ver com uma vida melhor, com uma vida mais gostosa, até.
Que lugares apertados e feios oprimem e te fazem mal. (Bem.. quase todos.. alguns são ótimos!).
Achei teu texto legal e tuas sugestões boas, pelo menos tu não sugeriu uma visita ao Cine Marabá (ahaha, pode xingar, negão!).
Embora eu tenha morado a vida toda aqui, não canso de dizer que prefiro a parte que me cabe desse latifúndio em outro lugar melhor e menos caótico.
O prefeito Xabi, digo, Kassabi, parece não ter dificuldades em saber se é certo ou errado formatar a cidade e se não há coisa melhor e mais importante a se pensar como educação. Ou se o problema de camelôs “enfeiando” a cidade não seria por conta da pobreza, mais do que da “falta de estética”.
Para não dizer que não gosto de nada, meus lugares são:
1 – Av. Paulista
2 – Liberdade
3 – Pinacoteca
4 – Masp
5 – Sesc Pompeia
6 – Galeria do Rock
7 – Sotozen
8 – Estádio do Morumbi
9 – Teatro Municipal
10 – Mercado Municipal
11 – Padaria Violeta
12 – Biblioteca/Praça Monteiro Lobato
Até que deu bastante, né?
Beijo!
T§
tarsischwald
Abril 16, 2007 em 5:59 pm
também arquiteta e urbanista perdidamente apaixonada por São Paulo… Nasci aí, vivi por aquele centro lindo até os 10 anos, quando vim pro interior. São Paulo passou a ser só passeio e por isso só prazer.
Mas o dia mais lindo em São Paulo foi com meu pai, logo depois de uma visita ao centro por causa de uma disciplina optativa de urbanismo, eu ainda precisava fazer outras fotos pra montar minha caixinha de jóias (o trabalho final da disciplina). Acordamos cedo no domingo e fomos para o Largo São Bento. Céu azul azul azul (São Paulo fica linda com domingos frios e ensolarados). Meu pai conhece o centro melhor do que as rugas de seu rosto e ficou encantado naquele domingo, completametne perdido… Era a primeira vez que ia ao centro sem as placas, os luminosos e os escondedores de fachadas… era a primeira vez que via os lindo edifícios que existiam atrás ddos painéis metálicos de propaganda das lojas.
Adoro ser surpreendida por essa cidade.
Adoro!
Laurinha
Abril 16, 2007 em 7:22 pm
conheço 04 dos 05.
lugares lindos e cheios de histórias.
mas ainda assim estou só de passagem por aqui.
: )
karine tito
Abril 16, 2007 em 7:59 pm
óóón obrigada pela citação fofa!
e esse post seria muito bem-vindo no sampaist. que texto coisa boa.
Bean
Abril 21, 2007 em 12:10 am
[...] Jump to Comments O tempo passou, a polêmica sobre a lei Cidade Limpa esfriou, eu formei a minha opinião a respeito e ainda se vê por aí estabelecimentos que ainda não se [...]
gentileza. « azar o seu, querida.
Junho 28, 2007 em 12:28 pm